quinta-feira, 3 de outubro de 2013

RELIGIÃO > A DESMORALIZAÇÃO DAS RELIGIÕES (OU, RELIGIÃO LTDA)


Não tenho dúvidas de que a disputa incansável por mais e mais fiéis é sem dúvida uma das maiores causas da desmoralização das instituições religiosas. Nestas disputas, assim como nas mais acirradas concorrências comerciais, muitas religiões procuram se adaptar às exigências de seus fiéis ou consumidores que na maioria das vezes estão atadas as constantes mudanças comportamentais de uma sociedade cada vez mais distante de Deus.

  Adaptar-se a todas estas mudanças passou a ser uma questão de sobrevivência comercial para a maioria das religiões. Em contrapartida, questioná-las transformou-se num 'risco inútil' que poucos benefícios poderiam trazer para o seu crescimento e sua popularização. Uma propaganda negativa quanto a sua tolerância para com as modernidades com certeza acarretaria em muitas deserções de suas fileiras e conseqüentemente sérios prejuízos financeiros. Pois, hoje em dia, o produto que uma religião coloca neste mercado cada vez mais exigente deve ser capaz de agradar não só aos seus fiéis, mas também de atrair outros seguidores, ou consumidores em potencial. Pois ao contrário, se o produto oferecido não corresponder às expectativas tanto de uns como de outros, estes com certeza vão simplesmente bater a porta da concorrência.

  Nesta busca por mais e mais seguidores muitas religiões estão deixando de lado a rigidez ética, estão abrindo mão do dever de propor normas de condutas e de ensinar o que é certo e o que é errado aos seus seguidores. A exigência hoje em dia é uma característica dos fiéis.

  No entanto, mesmo o termo 'fiéis', em muitos casos já não condiz mais com a verdade, pois a fidelidade por uma única crença deixou de fazer parte da personalidade de milhões de consumidores de religião. Estes trocam de religião como quem troca de roupa, pulam do catolicismo para o espiritismo, para umbanda e desta para as religiões neopentecostais. Freqüentam templos dispares, praticando um sincretismo pessoal sem qualquer compromisso com esta ou aquela doutrina. Vão atrás de sensações fortes e imediatas, atrás de emoções, de transes e de um verdadeiro espetáculo. Alguns novos fiéis não se contentam mais em orar incansavelmente para obter futuramente alguma graça. Querem receber esta graça de imediato. Não se contentam mais em freqüentar missas e cultos onde ouvirão um sermão, onde receberão ensinamentos éticos e morais. Querem um contato direto com Deus e uma interferência imediata Deste para lhes trazer alívio. Pois, para os consumidores religiosos a prioridade é o alívio imediato para o sofrimento do corpo físico e a resolução de seus problemas cotidianos, inclusive econômicos. A alma pode esperar. Por isso qualquer doutrina é válida desde que possam corresponder as suas expectativas temporais.

   Embora muitos supostos fiéis, embalados pelos ventos da liberdade religiosa, acendem uma vela em cada altar e se sujeitam a fazer trabalhos ‘mágicos’ em terreiros de religiões afro-brasileiras ao mesmo tempo em que freqüentam a Igreja Católica ou algum culto protestante; existem outros que permanecem verdadeiramente fiéis a sua religião, no que, muitas vezes se decepcionam ao perceber que ela própria não está mais completamente comprometida com a sua doutrina tradicional. Tudo em nome da concorrência cada vez mais acirrada por novos adeptos ou para manter os que já tem.

  Enquanto isso o comércio religioso cresce vertiginosamente e movimenta ano a ano cifras cada vez mais consideráveis. Os vendilhões novamente se instalaram no templo de onde oferecem, para o alívio de seus fiéis, desde CD’s e DVD’s até medalhinhas, imagens, velas de todos os tipos, incensos e até mesmo frascos com água abençoada, supostamente do rio Jordão. 

  Ora, estas religiões, no que se refere às cristãs, parecem esquecer que o motivo de sua existência é a crença em um Deus único e imutável e a pregação do verdadeiro evangelho de Jesus Cristo. Parecem esquecer que a sua função não é agradar aos homens e sim ensinar a eles o que agrada a Deus. De que adianta para uma religião atrair milhares de novos seguidores se para obter este feito ela se afastou, mesmo que pouco, da sua verdadeira função? 
  Se um fiel necessita de um espetáculo grandioso para sentir-se atraído pelo evangelho, ESTE MERECE VERDADEIRAMENTE A SALVAÇÃO? Se um fiel necessita de provas concretas do poder de Deus para reforçar a sua fé, esta FÉ É VERDADEIRA? Se este fiel moderno, adepto do ver para crer, nunca viu pessoalmente Jesus fazer algum milagre, será que ele acredita verdadeiramente Nele? Fé, a meu ver, é o mistério de acreditar cegamente naquilo que a gente não pode ver, é acreditar que Jesus está zelando por nós e que Ele nos ouve através de uma oração persistente, sem a necessidade de tumultos, de gritaria, de cantorias e de espetáculos. Afinal o próprio Jesus ensinou:
  “E quando orares, não seja como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas tu quando orares entra em teu aposento e, fechando a porta, ora a teu Pai que está secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente”. (Mateus 6; 5 e 6)

  Penso que a fé que depende de provas e demonstrações sensacionalistas para sobreviver não se distingue muito do racionalismo e do materialismo ateu.



(Clávio Schütz)  

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