quinta-feira, 3 de outubro de 2013

MEIO AMBIENTE > O TRÁFICO DE ANIMAIS



O tráfico de animais é um problema tão sério que já é o terceiro maior negócio ilícito do mundo, perdendo apenas para o comércio ilegal de armas e de drogas, superando o de pedras preciosas. Estima-se que este tráfico movimente anualmente 10 bilhões de dólares em todo o mundo. Sabe-se que os principais países compradores são europeus, asiáticos e os Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que os principais exportadores são países que possuem as faunas mais exuberantes como Brasil, Colômbia, Peru, Indonésia e alguns países africanos.

Todos os anos milhões de animais são retirados de seu habitat para serem vendidos a colecionadores particulares, zoológicos, aquários, centros de pesquisa, indústrias químicas e farmacêuticas, comerciantes de peles e de órgãos. Estima-se que de cada dez animais traficados, nove morrem durante o transporte devido à precariedade do mesmo, aos maus tratos, ou aos sedativos que lhes são administrados para que permaneçam em silêncio e não denunciem seus captores. Estes captores, aliás, não possuem a mínima piedade e muitas vezes em suas capturas matam os espécimes adultos para capturar os filhotes, que valem mais, ou até mesmo para surrupiarem ovos que são cada vez mais apreciados no mercado-negro. A crueldade é um ingrediente bastante farto no caráter destes criminosos o que se opõe de forma drástica a pouca severidade com que eles, ao serem presos, são punidos pelas leis existentes.

Aliás, muitas leis foram criadas mundo afora para proteger estes animais, no entanto, na prática elas não estão conseguindo burlar a ação destes traficantes especializados. Muitos deles souberam usar muito bem o anonimato da internet para incrementar seus negócios como prova um levantamento feito em 2005 pela ONG Fundo Internacional para o bem-estar dos animais (IFAW, em inglês): em apenas uma semana de investigação 9 mil animais e partes de animais estavam a venda em sites de comércio, destes 9 mil, 70 % eram de espécies protegidas pela Convenção Internacional de Comércio de Espécies em Perigo (CITES,em inglês), o que confirma a ineficiência de muitas leis que visavam proteger animais visados por traficantes.

  A situação é tão grave que nem mesmo as espécimes dos zoológicos estão seguras sendo que muitos casos de roubo destes animais já foram registrados, entre os quais destaco estes:  No já distante ano 2000 vinte e oito flamingos foram roubados de um zôo francês. Três anos depois, mais de setenta pequenos primatas sumiram de zoológicos europeus. Em 2007 o único exemplar de um raro macaco, o Saguinus bicolor sumiu do zoológico de Bauru/SP durante a madrugada. Em 2008 até mesmo jacarés, os raros jacarés albinos, sete ao todo, foram roubados do zoológico da Universidade Federal do Mato Grosso. Em 26 de junho de 2010 duas raríssimas Araras azuis sumiram do Zoológico de Guarulhos em São Paulo. Aliás, neste zoológico mais de 100 animais, principalmente aves e jabutis foram roubados entre 2005 e 2010 sendo que durante todo este tempo foram registrados boletins de ocorrência, mas no entanto as investigações só iniciaram cinco anos após o primeiro roubo. Este fato demonstra claramente como, infelizmente, crimes ambientais ainda são tratados com crimes menores. 

  Nem mesmo os parques nacionais estão livres do tráfico, parte por causa da corrupção e parte por causa da fiscalização deficiente. Na Estação Ecológica de Uruçuí-Uma no noroeste do Piauí, local de rara beleza que só começou a ser explorado pelo homem em 2003 e que devido a este isolamento conservou-se intacto durante séculos, o tráfico já se faz presente de forma arrasadora. Animais como o Veado-Galheiro, o Tamanduá-Bandeira, o Tatu-Bola e principalmente Araras e Papagaios começam a desaparecer de forma assustadora.

  No Brasil, o comércio de animais silvestres é proibido por lei desde 1967, porém segue livremente em feiras populares e a beira das estradas. Para variar, não há uma fiscalização eficiente devido a pouca seriedade de nossas autoridades no trato deste gravíssimo problema. Além do mais, a brandura de nossas leis é um incentivo a mais para a ação destes criminosos. Pois de nada adianta a Polícia Federal e os fiscais do Ibama agirem com rigor se as leis não acompanham este mesmo raciocínio.

  Desta forma, a crescente demanda faz com que os traficantes se tornem cada vez mais ousados e sintam-se tentados a correr o risco. Afinal, as penas para este tipo de crime não são tão severas e o lucro depois de concluída uma transação compensa o perigo, como podemos observar a seguir: Um Mico-leão-dourado sai do nosso país por US$ 300 dólares e é revendido por até US$ 25 mil. Uma onça-pintada sai do Brasil por aproximadamente US$ 3 mil e é revendida por US$ 10 mil. Um Tucano-de-bico-preto que é contrabandeado por US$ 200 dólares pode ser negociado no exterior por até US$ 6 mil. Já uma Arara-Azul que dificilmente sai das matas brasileiras por mais de R$ 5 mil pode ser comprada por algum colecionador estrangeiro por até US$ 30 mil. Sabe-se que um colecionador de Cingapura pagou US$ 60 mil por um único exemplar de Arara-Azul-de-Lear que acabou apreendido pela Interpol. Estes exemplos servem para termos uma noção do lucro fabuloso que estes criminosos obtêm à custa da preservação de nossas espécies selvagens. E o que vemos ser feito?

Sabe-se que em nosso país os maiores pólos distribuidores de animais silvestres são as cidades de Belém do Pará e de Feira de Santana na Bahia. No entanto em todo o país é comum encontrarmos à beira das estradas pessoas, muitas vezes crianças, vendendo aves, quelônios, pequenos primatas e toda a espécie de animais menores que podemos imaginar.

Enquanto bichos de maior porte são vendidos em negociações mais sofisticadas, pois obviamente, ninguém vai oferecer uma onça-pintada à beira de uma estrada.

Preocupante também são os casos envolvendo assassinatos de pessoas ligadas a defesa dos animais como o ocorrido no dia 14 de novembro de 2006, quando uma equipe do Ibama foi vitima de um ataque a tiros de caçadores ilegais de tartarugas. Um dos funcionários do órgão (que estava sob contrato temporário) morreu no local e os outros foram obrigados a pular na água, mesmo feridos, para que os criminosos fugissem com a lancha do Ibama. O crime ocorreu no rio Água Boa do Univi em Caracaraí, estado de Roraiama. Segundo depoimentos das vítimas os criminosos aguardavam de tocaia em uma curva do rio e o revide não foi possível pelo fato dos funcionários do Ibama estarem desarmados. A ação estava ligada a uma represália dos traficantes ao intenso combate ao tráfico de quelônios que vinha sendo desempenhado na região.

Mas e nós, cidadãos comuns o que poderíamos fazer?
Penso que devemos, ao menos, denunciar sem medo e sem pena qualquer pessoa que pratique este comércio desumano e ilegal. Devemos exigir que crimes ambientais não sejam mais tratados como “crimes menores”. Devemos exigir penas MUITO MAIS SEVERAS para este tipo de crime. Devemos cobrar das autoridades investigações sérias e que os culpados sejam punidos sejam eles quem for. Com certeza muita gente importante deve estar envolvida no tráfico de animais o que explicaria em parte a sua força, a falta de punições severas e até mesmo a brandura com que este tipo de crime é tratado, pelo menos em nosso país.

Mas se realmente amamos a natureza e respeitamos a vida selvagem, devemos estar atentos e conscientes de que esta guerra também é nossa caro(a) leitor(a). Lembre-se disso quando pegar a estrada nas suas férias e não tenha receio em denunciar, mesmo sabendo da deficiência de nossas leis sobre esta questão. Devemos, sobretudo, não dar tréguas a nossos legisladores, cobrando deles mais seriedade na questão ambiental, embora saibamos que a importância deste assunto sempre foi secundária nas rodas do poder muito mais preocupadas com a barganha política.

(OBS: Este texto foi escrito antes da aprovação do Novo Código Florestal)


(Clávio Schütz)

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