O tráfico de animais é um
problema tão sério que já é o terceiro maior negócio ilícito do mundo, perdendo
apenas para o comércio ilegal de armas e de drogas, superando o de pedras
preciosas. Estima-se que este tráfico movimente anualmente 10 bilhões de
dólares em todo o mundo. Sabe-se que os principais países compradores são
europeus, asiáticos e os Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que os principais
exportadores são países que possuem as faunas mais exuberantes como Brasil,
Colômbia, Peru, Indonésia e alguns países africanos.
Todos os anos milhões de animais são retirados de seu habitat para
serem vendidos a colecionadores particulares, zoológicos, aquários, centros de
pesquisa, indústrias químicas e farmacêuticas, comerciantes de peles e de
órgãos. Estima-se que de cada dez animais traficados, nove morrem durante o
transporte devido à precariedade do mesmo, aos maus tratos, ou aos sedativos
que lhes são administrados para que permaneçam em silêncio e não denunciem seus
captores. Estes captores, aliás, não possuem a mínima piedade e muitas vezes em
suas capturas matam os espécimes adultos para capturar os filhotes, que valem
mais, ou até mesmo para surrupiarem ovos que são cada vez mais apreciados no
mercado-negro. A crueldade é um ingrediente bastante farto no caráter destes
criminosos o que se opõe de forma drástica a pouca severidade com que eles, ao
serem presos, são punidos pelas leis existentes.
Aliás, muitas leis foram criadas mundo afora para proteger estes
animais, no entanto, na prática elas não estão conseguindo burlar a ação destes
traficantes especializados. Muitos deles souberam usar muito bem o anonimato da
internet para incrementar seus negócios como prova um levantamento feito em
2005 pela ONG Fundo Internacional para o bem-estar dos animais (IFAW, em
inglês): em apenas uma semana de investigação 9 mil animais e partes de animais
estavam a venda em sites de comércio, destes 9 mil, 70 % eram de espécies
protegidas pela Convenção Internacional de Comércio de Espécies em Perigo
(CITES,em inglês), o que confirma a ineficiência de muitas leis que visavam
proteger animais visados por traficantes.
A situação é tão grave que nem mesmo as espécimes dos zoológicos estão seguras
sendo que muitos casos de roubo destes animais já foram registrados, entre os
quais destaco estes: No já distante ano 2000 vinte e oito flamingos foram
roubados de um zôo francês. Três anos depois, mais de setenta pequenos primatas
sumiram de zoológicos europeus. Em 2007 o único exemplar de um raro macaco,
o Saguinus bicolor sumiu
do zoológico de Bauru/SP durante a madrugada. Em 2008 até mesmo jacarés, os
raros jacarés albinos, sete ao todo, foram roubados do zoológico da
Universidade Federal do Mato Grosso. Em 26 de junho de 2010 duas raríssimas
Araras azuis sumiram do Zoológico de Guarulhos em São Paulo. Aliás, neste
zoológico mais de 100 animais, principalmente aves e jabutis foram roubados
entre 2005 e 2010 sendo que durante todo este tempo foram registrados boletins
de ocorrência, mas no entanto as investigações só iniciaram cinco anos após o
primeiro roubo. Este fato demonstra claramente como, infelizmente, crimes
ambientais ainda são tratados com crimes menores.
Nem mesmo os parques nacionais estão livres do tráfico, parte por causa da
corrupção e parte por causa da fiscalização deficiente. Na Estação Ecológica de
Uruçuí-Uma no noroeste do Piauí, local de rara beleza que só começou a ser
explorado pelo homem em 2003 e que devido a este isolamento conservou-se
intacto durante séculos, o tráfico já se faz presente de forma arrasadora.
Animais como o Veado-Galheiro, o Tamanduá-Bandeira, o Tatu-Bola e
principalmente Araras e Papagaios começam a desaparecer de forma assustadora.
No Brasil, o comércio de animais silvestres é proibido por
lei desde 1967, porém segue livremente em feiras populares e a beira das
estradas. Para variar, não há uma fiscalização eficiente devido a pouca
seriedade de nossas autoridades no trato deste gravíssimo problema. Além do
mais, a brandura de nossas leis é um incentivo a mais para a ação destes
criminosos. Pois de nada adianta a Polícia Federal e os fiscais do Ibama agirem
com rigor se as leis não acompanham este mesmo raciocínio.
Desta forma, a crescente demanda faz com que os traficantes
se tornem cada vez mais ousados e sintam-se tentados a correr o risco. Afinal,
as penas para este tipo de crime não são tão severas e o lucro depois de
concluída uma transação compensa o perigo, como podemos observar a seguir: Um
Mico-leão-dourado sai do nosso país por US$ 300 dólares e é revendido por até
US$ 25 mil. Uma onça-pintada sai do Brasil por aproximadamente US$ 3 mil e é
revendida por US$ 10 mil. Um Tucano-de-bico-preto que é contrabandeado por US$
200 dólares pode ser negociado no exterior por até US$ 6 mil. Já uma Arara-Azul
que dificilmente sai das matas brasileiras por mais de R$ 5 mil pode ser
comprada por algum colecionador estrangeiro por até US$ 30 mil. Sabe-se que um
colecionador de Cingapura pagou US$ 60 mil por um único exemplar de
Arara-Azul-de-Lear que acabou apreendido pela Interpol. Estes exemplos servem
para termos uma noção do lucro fabuloso que estes criminosos obtêm à custa da
preservação de nossas espécies selvagens. E o que vemos ser feito?
Sabe-se que em nosso país os maiores pólos distribuidores de
animais silvestres são as cidades de Belém do Pará e de Feira de Santana na
Bahia. No entanto em todo o país é comum encontrarmos à beira das estradas
pessoas, muitas vezes crianças, vendendo aves, quelônios, pequenos primatas e
toda a espécie de animais menores que podemos imaginar.
Enquanto bichos de maior porte são vendidos em negociações mais
sofisticadas, pois obviamente, ninguém vai oferecer uma onça-pintada à beira de
uma estrada.
Preocupante também são os casos envolvendo assassinatos de pessoas
ligadas a defesa dos animais como o ocorrido no dia 14 de novembro de 2006,
quando uma equipe do Ibama foi vitima de um ataque a tiros de caçadores ilegais
de tartarugas. Um dos funcionários do órgão (que estava sob contrato
temporário) morreu no local e os outros foram obrigados a pular na água, mesmo
feridos, para que os criminosos fugissem com a lancha do Ibama. O crime ocorreu
no rio Água Boa do Univi em Caracaraí, estado de Roraiama. Segundo depoimentos
das vítimas os criminosos aguardavam de tocaia em uma curva do rio e o revide
não foi possível pelo fato dos funcionários do Ibama estarem desarmados. A ação
estava ligada a uma represália dos traficantes ao intenso combate ao tráfico de
quelônios que vinha sendo desempenhado na região.
Mas e nós, cidadãos comuns o que poderíamos fazer?
Penso que devemos, ao menos, denunciar sem medo e sem pena qualquer
pessoa que pratique este comércio desumano e ilegal. Devemos exigir que crimes
ambientais não sejam mais tratados como “crimes menores”. Devemos exigir penas
MUITO MAIS SEVERAS para este tipo de crime. Devemos cobrar das autoridades
investigações sérias e que os culpados sejam punidos sejam eles quem for. Com
certeza muita gente importante deve estar envolvida no tráfico de animais o que
explicaria em parte a sua força, a falta de punições severas e até mesmo a
brandura com que este tipo de crime é tratado, pelo menos em nosso país.
Mas se realmente amamos a natureza e respeitamos a vida selvagem,
devemos estar atentos e conscientes de que esta guerra também é nossa caro(a)
leitor(a). Lembre-se disso quando pegar a estrada nas suas férias e não tenha
receio em denunciar, mesmo sabendo da deficiência de nossas leis sobre esta
questão. Devemos, sobretudo, não dar tréguas a nossos legisladores, cobrando
deles mais seriedade na questão ambiental, embora saibamos que a importância
deste assunto sempre foi secundária nas rodas do poder muito mais preocupadas
com a barganha política.
(OBS: Este texto foi escrito antes da aprovação do Novo Código
Florestal)
(Clávio Schütz)
Nenhum comentário:
Postar um comentário